Medidas do governo tentam conter alta do diesel, mas guerra, defasagem de preços e limitações no refino continuam pressionando o mercado.
Publicado em 15 de Março de 2026 às 10:09
Desde o início da guerra no Oriente Médio, o mercado de petróleo passou por fortes oscilações. Em poucos dias, o barril variou entre US$ 73 e US$ 119,50, encerrando a última sexta-feira acima de US$ 100.
No Brasil, esse cenário internacional começou a pressionar diretamente o preço do diesel. Relatório da ABICOM - Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis apontava uma defasagem de até 72% no preço do combustível, o equivalente a cerca de R$ 2,34 por litro em relação às referências internacionais.
Diante desse cenário, o governo federal anunciou na quinta-feira (12/03) um pacote de medidas emergenciais por meio do Decreto nº 12.875 e da Medida Provisória nº 1.340, com o objetivo de tentar conter a alta do diesel no país.
Entre as medidas, a que poderia gerar impacto mais imediato era a isenção de PIS e Cofins sobre o diesel, com redução estimada em cerca de R$ 0,32 por litro.
No entanto, o efeito dessa redução acabou sendo rapidamente neutralizado. No dia seguinte ao anúncio, a Petrobras comunicou um reajuste de R$ 0,38 por litro no preço do diesel nas refinarias.
Antes mesmo desse aumento oficial, a estatal já havia comercializado, em leilão no Rio Grande do Sul, um lote de aproximadamente 20 milhões de litros de diesel a um valor cerca de R$ 1,78 acima do preço que vinha praticando no mercado, em meio a relatos de dificuldades de abastecimento durante o período de colheita no estado, o que demonstrava que tanto a estatal quanto a união já tinham o conhecimento da defasagem nos preços praticados pelo mercado e a baixa oferta de combustíveis em estoques de revendedores.
Outras medidas anunciadas pelo governo, como a criação de subvenções para produtores e importadores, não têm efeito imediato. Na prática, o mecanismo prevê que o governo subsidie até R$ 0,32 por litro, desde que os agentes comprovem posteriormente o repasse do desconto e passem por um processo de análise junto à União — um procedimento considerado complexo e com riscos regulatórios para quem participa.
O pacote também inclui impostos sobre a exportação de petróleo e derivados, além da previsão de multas que podem variar de R$ 50 mil a R$ 500 milhões para agentes que elevarem preços de forma considerada abusiva ou que se recusem a fornecer combustível sem justificativa.
Apesar das tentativas de controle, o principal problema é estrutural. O Brasil é autossuficiente na produção de petróleo, mas não tem capacidade de refino suficiente para produzir todo o diesel que consome, dependendo de importações que chegam a cerca de 30% do abastecimento nacional.
Esse cenário cria um desequilíbrio no mercado. Postos vinculados diretamente à Petrobras conseguem operar com preços mais competitivos, mas não conseguem suprir a demanda nacional, inclusive com relatos de escassez e difuldades de retirar volumes médios já contratados, enquanto postos independentes e distribuidores — que dependem mais do diesel importado — acabam expostos a custos mais altos e dificuldades ainda maiores de reposição.
Na prática, a tentativa de segurar os preços internamente enquanto o mercado internacional dispara aumenta a incerteza para importadores e distribuidores.
O resultado é um mercado pressionado por três fatores ao mesmo tempo: guerra no exterior, defasagem de preços no Brasil e limitações estruturais no refino nacional.
No fim das contas, o governo tenta conter a alta enquanto a guerra pressiona o petróleo e o mercado internacional aponta para preços mais altos.
E enquanto essa conta não fechar, o diesel continuará sendo um problema difícil de resolver — dentro e fora do Brasil.
Fonte: Redação